domingo, 17 de maio de 2009

Porcolândia

Corrida do Porco na Porcolândia

* Luiz Alberto M. da Costa

A Corrida do Porco, aquela mesma inventada e patenteada por Medianeira, finalmente chegou à Porcolândia. Aconteceu no tempo em que os bichos falavam e deu a maior confusão.
Desde muito antes da competição propriamente dita. Dela participaram atletas e torcedores de grupos ou clãs mais que conhecidos.
Lá estavam os Landrace, Large-Wite, Duroc, Piau, Macau, híbridos, cruzados e remanescentes de varas de Porco-Preto, Porco-Banha, Javalis, Queixadas e Tatetos.
Os primeiros conflitos surgiram já na inscrição dos competidores. Os que levavam a sério a teoria de que carreira se ganha no atar, queriam esconder os parelheiros ou, pelo menos, suas reais condições físicas e atléticas.
Diante da falta de perspectivas de sucesso e riscos de vexame, por razões óbvias, a turma do Porco-Banha logo desistiu.
Ficaram os que tinham alguma confiança na vitória, convictos da capacidade de surpreender de seus atletas e os que contavam com a sorte de chegar na frente, na eventualidade de um algum acidente com adversários.
No início, todos alimentavam a esperança de vencer e apostavam alto nos cascos de seus porcos.
Novas grandes brigas aconteceram no grupo dos híbridos, que reuniam aptidões e, também, defeitos e contradições de diversas raças misturadas, após inúmeras cruzas.
Seus integrantes diziam que se tratava do melhor da genética moderna, mas entre os rivais a técnica ensejava comentários pouco lisonjeiros.
Os sem-raça definida eram gozados e até chamados de vira-latas da pocilga, embora nada tivessem com cachorros sem-dono. Devido às diferenças internas, seus grupos pareciam sacos de gatos.
Os bichos tinham peles multicores, com marcas de todas as ascendências. Era difícil defini-los como os demais porcos da época, mas alegavam que cruzamentos lhes garantiam soma de qualidades de raças diferentes.
No esforço para ganhar a carreira a qualquer custo, os híbridos usaram animal criado em chiqueiro alheio. Abertas as apostas, os adversários os acusaram de violar normas da competição, alegando que o porco inscrito era uma fraude.
O bicho, porém, foi apresentado como animal importado, coisa nova, embora fosse manjado no plantel. Além disso, tinha fama de encrenqueiro e mau caráter.
O principal concorrente era o representante das ditas raças puras que, segundo os fofoqueiros de plantão, igualmente teria nascido em chiqueiro estranho.
Sob os pêlos brancos estariam manchas escuras denunciando a verdadeira origem, mas tinha o aval dos donos da genética. Era o favorito, considerando o predomínio do lote sobre o rebanho.
Os outros eram porcos de menor representatividade. Um fuçava demais para o gosto da platéia, outro arrotava ração que absolutamente não comia e um terceiro adotou a estratégia de bancar o leitão caído do caminhão, para conquistar simpatia dos independentes e sensibilizar os corações mais generosos.
Chegou o dia da competição, que dispensava etapas classificatórias.
Tudo começava a terminava na final. Qualquer erro ou vacilo seria fatal. As torcidas faziam a barulheira que podiam.
Dada a largada, houve algumas hesitações, mas logo os porcos dispararam pela pista e o resultado, mais uma vez, não teve zebra. Nem podia. Era mais uma carreira de porco.
Mágica, como se sabe, só existe em loja especializada. Desde que inventaram a máquina fotográfica e a filmadora não houve novos milagres ou aparições. Outras histórias da Porcolândia, a gente conta na hora oportuna.

* O autor é jornalista, poeta e escritor em Toledo.
E-mail: costaassessoria@adslcertto.com.br

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