domingo, 17 de maio de 2009

Cultura toledana 1

A revolução silenciosa do conhecimento e do questionamento

* Luiz Alberto M. da Costa

Embora nem todos percebam, por desatenção ou qualquer outra razão, está em andamento uma revolução silenciosa e irreversível em Toledo. É a revolução do conhecimento, das artes, da contemplação, da sensibilidade e dos questionamentos.
A participação de mais de 50 inscritos em Oficina Literária, realizada na Biblioteca Municipal, entre 23 e 27 de julho de 2007, foi mais uma evidência dessa transformação dos meios culturais e da massa crítica da cidade.
A mudança acontece sem alarde, desapercebida da maioria da população, porque essa é uma característica da intelectualidade e da cultura. Barulheira, gritaria e egocentrismo são alguns dos sintomas mais visíveis da ignorância.
Ministradas pelas professoras Sandra Nogueira e Edy Braun, as atividades da oficina abordaram os mais diversos ramos da literatura, da odisséia ao soneto, passando pelo romance, conto, crônica, prosa e poesia.
A iniciativa foi conjunta da Biblioteca Municipal e campus local da Unioeste, com certificado de aproveitamento aos participantes. A coordenação coube à diretora da Biblioteca, Nancy Futagami, e à professora Ermínia Machiavelli.
Os inscritos eram em sua grande maioria professores dos três níveis de ensino, o que significa que o crescimento cultural da cidade está nascendo das bases, através da educação.
Os pontos altos do evento não se restringiram ao aprendizado, número e atenção dos participantes, considerando sua pequena divulgação - numa única oportunidade e em único programa de rádio de final da tarde, quando o veículo é esmagado pela audiência maciça da televisão.
Ao final da oficina, na noite de 27 de julho, foi dada largada para concretização de alguns dos maiores sonhos de intelectuais toledanos. A partir deste mês de agosto, poetas, escritores e apreciadores da literatura, irão reunir-se na última segunda-feira de cada mês, na Biblioteca Municipal.
O objetivo é confraternizar, usufruir do prazer de ler e escrever e debater a constituição do Clube de Poesia, formalizada no dia 27 de agosto, e da Academia de Letras de Toledo. Os idealizadores já falam em concurso e varal de poesia para este final de ano, publicação de livros e outras iniciativas, visando a difusão da cultura toledana e valorização de talentos locais.
Com relação à organização de classe, Toledo, a outrora capital da cultura do Oeste do Paraná, foi superada por Cascavel e Foz do Iguaçu. A professora e artista plástica Edy Braun, por sinal, ajudou a fundar a Academia de Letras de Cascavel e prometeu liderar a mobilização pela entidade toledana.
A entidade pode também servir para homenagear o saudoso advogado, historiador e ex-prefeito de Toledo, Wilson Carlos Kuhn, falecido em 28 de julho daquele ano.
Como construtor da 1ª Casa da Cultura do Paraná e criador do hoje acéfalo Conselho Municipal de Cultura, bem que mereceria denominar ou ser o patrono da Academia de Letras de Toledo.
A grande participação na Oficina Literária, no mais amplo sentido da palavra, veio reforçar tese da expansão e diversificação das atividades lúdicas na cidade.
Outro exemplo do fenômeno está na multiplicação de lojas voltadas às artes plásticas e ao artesanato na cidade, com comercialização de material e oferta de cursos ao longo da semana.
Deve ser saudada da mesma forma iniciativa de instalação de café na Avenida Maripá, com espaço destinado às exposições artísticas, oferecendo alimentos ao corpo e à alma de seus freqüentadores.
Estes estabelecimentos, especialmente os que unem café e livraria, são muito comuns na Argentina e começam a multiplicar-se em São Paulo e outros grandes centros urbanos brasileiros.
Na verdade, são espaços culturais que prezam pela praticidade e simplicidade, pois o cliente entra, senta, pede um café e pode manusear livros à vontade.
Tudo isso, sem falar em extensas e vistosas vitrines externas, exclusivamente para exibição de livros, de diversas livrarias de Toledo, que até pouco tempo vendiam de tudo, menos literatura.
Na Universidade Aberta à Terceira Idade (Unati), do campus da Unioeste, a oficina semanal de pintura e poesia, comandada pela professora Edy Braun, é uma das mais animadas e pintores renomados e novatos já falam na implantação de ateliê comunitário na cidade, para produção e exposição conjunta de seus trabalhos.
Essa evolução, salvo melhor juízo, é fruto da condição de centro universitário, consolidada por Toledo. Com pouco mais de 100 mil habitantes, a cidade conta com cinco instituições de ensino superior, das quais duas públicas.
São seis campi, com 40 cursos de graduação, diversos cursos de pós-graduação, especialização e mestrado e cerca de oito mil acadêmicos, além de diversas extensões de outras universidades e faculdades.
Como o ensino universitário promove o debate e desperta o senso crítico entre a comunidade acadêmica e cada universitário motiva discussões em seu grupo social, como familiares, amigos e colegas de trabalho, a mudança de mentalidade da população pode ser ainda mais profunda.
Afinal, além do incentivo acadêmico ao questionamento de ações e discursos, há ainda a avalanche de informações que chega à população, através dos meios de comunicação, lhes oferecendo referências para avaliação de propostas e manifestações locais.
É a revolução silenciosa, da era do conhecimento, da internet e do crescimento da massa crítica, que pode surpreender aos desatentos, muito antes que possam imaginar.

* O autor é jornalista, poeta e escritor.
E-mail: costaassessoria@adslcertto.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário